Ade Ajao (Base10, US$ 1,8 bi): a IA Compete pela Folha de Pagamento, não pelo Software

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O áudio e o vídeo estão em espanhol. Estas notas são uma tradução.

Hoje entrevistei Ade Ajao, sócio fundador da Base10, um fundo do Vale do Silício que administra cerca de US$ 2 bilhões e investe em empresas que automatizam a economia real. O portfólio inclui Nubank, Figma, Brex, Rappi e Notion.

Antes da Base10, Ade fundou o Tuenti, o Facebook espanhol, e o vendeu para a Telefónica por 100 milhões quando tinha 26 anos. Depois foi cofundador da Cabify e vendeu sua empresa seguinte para a Workday.

Ele nasceu na Nigéria, filho de pai nigeriano e mãe espanhola, cresceu na Espanha e está há 16 anos no Vale do Silício. Quando ele era criança, a mãe lhe disse que com aquela mistura ele não ia se encaixar em lugar nenhum, e que estava tudo bem.

Falamos de por que ele teve que aprender a fazer pitch como americano, do único sinal a que ele dá mais peso hoje ao avaliar um empreendedor e da tese atual dele: a de que a IA não disputa o orçamento de software, e sim o da folha de pagamento.

Estrutura e Principais Destaques

Os que Não se Encaixam

  • Os pais dele se conheceram num avião e nem estavam sentados juntos. O pai viu a mãe passar, ela viajava com a avó, e ele teve coragem
  • Ele viveu na África e na Europa e fez negócios na América Latina e nos Estados Unidos. Houve períodos em que se sentia nem daqui nem de lá
  • A frase da mãe quando os filhos voltaram da escola dizendo que não se encaixavam: vocês são uma mistura tão grande que não vão se encaixar em lugar nenhum, então esqueçam isso e sejam vocês mesmos
  • A leitura dele dessa frase hoje: quando as pessoas pedem que ele invista em europeus, em latinos ou em minorias, a resposta dele é que tudo é a mistura
  • Ele está há 16 anos no Vale do Silício e continua aprendendo a entender o lugar, entre outras coisas porque ele muda o tempo todo
  • A observação mais ampla dele: com a IA, o mundo inteiro está passando pela pergunta que ele viveu quando criança, onde eu me encaixo

Vender o Tuenti aos 26

  • O que mais mudou para ele não foi o dinheiro, e sim a prova de que era possível. Um grupo de jovens de 22 anos montar uma startup, fazê-la crescer e vendê-la não se encaixava na Espanha daquela época
  • Os professores da universidade diziam para ele não jogar a carreira fora por colocar fotos na internet
  • Ele ofereceu emprego no Tuenti a vários dos melhores colegas de turma, e eles responderam que aquilo não se fazia
  • O que mais o orgulha: amigos próximos daquela história que decidiram que eles também podiam e hoje têm empresas maiores que o Tuenti
  • A meia brincadeira, meio a sério, dele: se eu vejo que ele conseguiu, não deve ser tão difícil
  • Na semana anterior ele esteve com engenheiros espanhóis de 20 a 30 anos e saiu com duas conclusões: todos dão como certo que é possível, e ele fica feliz de não ter que competir com eles

Aprender a Fazer Pitch como Americano

  • O que mais custou adaptar foi a confiança. Na Espanha, o sistema educacional e social ensina você a pedir permissão e a ser grato, e se reunir com um subdiretor é como uma audiência com o Papa
  • No Vale do Silício, alguém se oferece para te apresentar ao CEO por e-mail e tomar um café, e a sua reação interna é se perguntar por que essa pessoa falaria com você
  • O feedback que o marcou: um amigo de venture capital disse que faltava arrogância a ele, porque um garoto de 18 anos que tinha feito estágio na Microsoft acabara de fazer um pitch para eles se apresentando como assessor de Bill Gates, e ele nem mencionava que tinha fundado e vendido uma empresa
  • O que o fez mudar: 50 fundos dizendo não. Ou ele voltava para a Espanha ou aprendia a fazer o pitch como americano
  • Continua não sendo natural para ele, mas ele mudou por necessidade
  • O lado bom de um ambiente assim, na opinião dele, é que ele força você a dar o seu melhor e te dá feedback muito rápido, e que as pessoas também são abertas quando as coisas vão mal

O que Significa Vender como Americano

  • Antes de tudo, ser direto. Na cultura hispânica, a mensagem vem embrulhada em descrição e sentimento, e é por isso que temos uma literatura tão rica
  • O conselho que ele recebeu antes de falar com um empreendedor lendário: bilionários não têm tempo para te conhecer, eles querem que você venda algo para eles
  • Eles chegaram lá porque gostam de oportunidades de negócio, então quando falam com você estão procurando onde está a oportunidade
  • A tradução prática: em vez de “eu adoraria tomar um café e conversar”, algo como “sei que você se interessa por X, aqui estão dois, me diga o que acha e eu consigo mais três”
  • A nuance dele sobre o transacional: o inautêntico é querer algo e não dizer quando é evidente
  • O exemplo dele de autenticidade: as pessoas no topo da profissão são consistentes. Jantar com alguém assim é desconfortável, a menos que você queira falar do assunto dela, e aí não há ninguém melhor

A Tese da Economia Real

  • A Base10 começou em 2017 com o tagline “Applied AI for the real economy”. O feedback que ele recebeu dos LPs foi que IA aplicada não era uma categoria, então ele trocou para automation
  • Ele mostrou esse deck antigo na reunião anual deste ano para lembrá-los
  • De onde veio a tese: lançar um serviço de carros no Peru com a Cabify, e depois Rappi, Nubank, Instacart e ShipBob
  • A experiência dele na Workday também aponta para isso. Ele atendeu clientes como Life Time Fitness e Chuck E. Cheese, onde a pergunta era genuinamente o que dá para fazer com esses dados
  • Ele trabalhava com redes neurais em 2011 e 2012, e em 2014 apresentou ao conselho da Workday um benchmark de quando a IA ia resolver cada jogo. Ele colocou o Go a uns 20 anos de distância, e o AlphaGo venceu uns nove meses depois

Por que as Indústrias Lentas Agora Compram Rápido

  • A surpresa dele é genuína: ele nunca pensou que ia tão rápido
  • O fator cultural parece a ele tão importante quanto o tecnológico. Agora as pessoas acreditam
  • A comparação dele: a transição para a nuvem começou por volta de 2002 e, nos Estados Unidos, ainda estamos perto de cinquenta por cento com on premise. Vinte anos para metade do país
  • A transição para o mobile foi mais rápida porque as pessoas compravam iPhones e brincavam com eles. Era muito menos abstrato que a nuvem
  • Hoje acontece o mesmo com o chat. As pessoas usam o dia todo, chegam à empresa, não podem usar e concluem que faz falta
  • Ou seja, o ChatGPT e o Claude fizeram o trabalho de evangelização, e as startups chegam a um cliente já preparado
  • Ele vê adoção em todo lugar: logística, serviços financeiros, jurídico, alimentação, agricultura. O que mais o surpreende é o jurídico
  • Sobre PMEs: na América Latina, o WhatsApp Business é muito mais usado do que no corporativo americano, e com a IA acontece o mesmo. Para uma empresa de cinco pessoas a mudança é imediata, e por isso elas querem já

Defensabilidade, sem Framework

  • A resposta dele quando perguntam onde está a defensabilidade: ele não faz ideia, e não acredita que alguém faça
  • O argumento dele: Karpathy, Amodei e Altman poderiam se sentar para montar um framework que ficaria obsoleto depois de amanhã
  • O que fazem na Base10, em vez disso, é ir atrás das pessoas mais do que nunca. Se estamos indo para um mundo em que qualquer um pode construir uma Salesforce, ele não é inteligente o bastante para resolver isso, mas aquele fundador é
  • O caso que ilustra: um mês inteiro de pesquisa em um subsetor de healthcare, mais de 30 empresas, 50 clientes, um time de quatro pessoas
  • O trabalho serviu para aprender sobre o mercado e para ver quais times eram mais interessantes, não para chegar a uma resposta sobre para onde o mercado vai
  • A decisão final foi totalmente sobre pessoas. Eles não escolheram a maior empresa nem a que crescia mais rápido

A Única Coisa que Nunca Falhou

  • O que mais pesa hoje na avaliação dele de um empreendedor é a própria vontade de trabalhar com aquela pessoa
  • Ele já errou mais do que acertou, o que faz parte do negócio, mas prefere errar com gente com quem quer trabalhar
  • A observação central dele: nunca aconteceu de ele acertar com gente com quem não estava com vontade de trabalhar
  • Ele não confunde isso com concordar. Ele discorda o tempo todo do time, da família e dos amigos, e adora trabalhar com eles
  • Ele não tenta competir com Marc Andreessen, Doug Leone, Mike Moritz ou Peter Thiel. A conclusão dele é que ele é quem é
  • A consequência prática: quando ele encontra a pessoa, o estágio importa menos. Já fizeram termos que normalmente não fariam, sempre dentro de limites
  • O aprendizado pendente: ele coloca capital pessoal no fundo, mas a matemática de devolver um fundo é diferente da de investir como anjo

Vender contra o Orçamento da Folha de Pagamento

  • A tese em uma linha: investir em empresas que não disputam o orçamento de software, e sim o da folha de pagamento
  • Eles descobriram isso conversando com clientes, não num quadro branco
  • A consequência é dura: se o dinheiro sai do orçamento de atendimento ao cliente, o produto tem que resolver o atendimento ao cliente, não deixar um recado para um humano
  • Mais exigência de produto, mas também um orçamento muito maior
  • Quando perguntam se isso faz uma startup de IA operar mais como consultoria do que como empresa de tecnologia, ele responde com o próprio erro: há 14 anos ele não investiu na Palantir porque a via como uma consultoria
  • A lição que ele tirou: não coloque rótulos quando você está diante de um modelo novo. Se perguntarem se é consumo, SaaS ou serviços, a resposta útil é qual é a expectativa, qual é o preço e qual é o serviço

A Nova Régua de Crescimento

  • Das centenas de empresas que eles avaliaram internamente nas primeiras oito semanas do ano, pelo menos um terço cresceu mais de 5x no ano passado
  • Há um ano e meio, bastava alguém escrever dizendo que uma empresa tinha crescido 5x para ele pedir a apresentação na hora
  • Agora a maior parte do tempo vai para decidir com quem se reunir, porque sempre há dois concorrentes crescendo mais
  • O exemplo próximo dele: a Happy Robot cresceu 10 vezes em um ano

Ficção Científica como Método

  • Toda história de ficção científica começa com a mesma pergunta: what if
  • A melhor ficção científica não trata de tecnologia, e sim de natureza humana. A primeira, Frankenstein, é exatamente isso
  • Os exemplos recentes dele são histórias profundamente humanas: A Chegada, Ex Machina, Ela, Duna
  • Como ele aplica isso ao trabalho: no fim, o que importa é o humano, o fundador
  • E o hábito mental que ele leva: perguntar o que poderia dar certo, não o que poderia dar errado
  • A quem ele agradece por ter pensado grande: à mãe, por deixar claro que ele esquecesse a ideia de se encaixar, e à esposa, Emily, a pessoa que mais acredita nele e a quem ele consulta nas decisões importantes

Glossário do Vale do Silício

TermoO que significaContexto no episódio
Orçamento da folha de pagamentoA rubrica com que se pagam salários, não ferramentasO que os agentes disputam, segundo a tese atual dele
Economia realIndústrias físicas e tradicionais, não software puroLogística, bancos, seguros: a tese original da Base10 em 2017
Applied AIIA aplicada a um problema concreto de negócioO tagline que os LPs pediram para ele trocar por não ser uma categoria
On premiseSoftware que roda nos servidores da própria empresaMetade do mercado americano continua lá, 20 anos depois
DefensabilidadeO que impede um concorrente de te copiarA pergunta que ele diz não saber responder, e que acredita que ninguém sabe
LPOs investidores que colocam o dinheiro em um fundoQuem disse a ele, em 2017, que IA aplicada não era uma categoria
Pre-seed, seed, Série AOs estágios de financiamento de uma startupDeixam de importar para ele quando encontra a pessoa certa
WrapperProduto construído como uma camada fina sobre um modeloA discussão sobre onde está o valor, se no modelo ou na aplicação
PipelineO fluxo de oportunidades que um fundo avaliaCentenas de empresas em oito semanas, um terço crescendo mais de 5x
Self selectionO ambiente filtra sozinho quem está disposto a competirA descrição dele de por que quem está no Vale do Silício está lá

Pessoas, Empresas e Referências

Pessoas Mencionadas

  • Ade Ajao: sócio fundador da Base10, antes Tuenti, Cabify e Workday
  • A mãe dele: espanhola, a da frase sobre não se encaixar que organizou a vida dele
  • O pai dele: nigeriano, o que teve coragem de falar com a mãe dele no avião
  • Emily: a esposa dele, a quem ele consulta nas decisões mais importantes
  • Simón Borrero: fundador da Rappi, o exemplo dele do efeito de ter referências próximas
  • Marc Andreessen, Doug Leone, Mike Moritz e Peter Thiel: as lendas do setor com quem ele não tenta competir
  • Andrej Karpathy, Dario Amodei e Sam Altman: os que poderiam montar um framework que ficaria obsoleto do mesmo jeito
  • Enzo Cavalie: apresentador do podcast

Empresas e Referências

  • Base10 Partners: o fundo dele, cerca de 2 bilhões sob gestão
  • Tuenti: o Facebook espanhol, vendido para a Telefónica por 100 milhões
  • Cabify: cofundada em 2012, a primeira experiência dele com automação da economia real
  • Workday: adquiriu a empresa dele em 2014, onde ele trabalhou com machine learning aplicado a recursos humanos
  • Nubank, Rappi, Figma, Brex, Notion, Instacart, ShipBob: investimentos do portfólio
  • Happy Robot: a empresa próxima que cresceu 10 vezes em um ano
  • Palantir: o investimento que ele não fez por colocar nela o rótulo de consultoria
  • Harvey: a adoção no setor jurídico que o surpreendeu
  • AlphaGo contra Lee Sedol: o marco que chegou uma década antes do que ele tinha projetado
  • Frankenstein, A Chegada, Ex Machina, Ela e Duna: a ficção científica que ele lê como histórias sobre natureza humana

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