O CTO que Recusou o Futebol Profissional para Construir a Firecrawl

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Gravado em inglês, com versão dublada em português no YouTube (⚙️ › Faixa de áudio). Estas notas são uma tradução.

Hoje entrevistei Nicolas Silberstein, cofundador e CTO da Firecrawl, a ferramenta que permite que agentes de IA leiam a internet.

Ele cresceu no Brasil jogando pelo São Paulo FC e, aos doze anos, foi convidado para a base pré-profissional do clube, o que significava largar a escola. Ele escolheu o código. Hoje a Firecrawl é usada por 350.000 desenvolvedores e por empresas como Shopify, Replit e Zapier.

O centro da conversa é uma pergunta que todo fundador no Vale deveria estar fazendo agora: quando o custo de construir vai a zero, o que torna o seu produto defensável? A resposta dele é o teste do indie hacker, e ela é desconfortável.

Também falamos sobre por que conquistar os desenvolvedores é a forma de conquistar os agentes, e sobre a ambição dele de se tornar os olhos da superinteligência.

Estrutura e Principais Destaques

Do São Paulo FC ao Código

  • Entrou no São Paulo FC por volta dos cinco ou seis anos, jogando como ponta-esquerda
  • Campeão estadual aos nove ou dez anos, com quatro treinos por semana e jogos o fim de semana inteiro
  • Aos doze foi convidado para a base, o que exigia largar a escola e viajar pelo Brasil
  • Ele mesmo fez as contas: gente demais disputa vagas de menos, e ele ia bem nos estudos
  • Sobre o nível de competição: milhares de crianças por peneira, das quais se selecionam de 20 a 40, e depois outra peneira para selecionar 23. Ele compara com se candidatar à YC ou à Ivy League
  • Daquele último time, só um jogador virou profissional, e ele já tinha apostado nele de antemão
  • No Brasil há mais exemplos de jogadores de futebol bem-sucedidos do que de fundadores técnicos
  • O que ficou com ele: saber lidar com pressão e competição desde cedo

Videogames como Porta de Entrada para a Programação

  • O pai dele, engenheiro, não gostava que ele jogasse, então sugeriu que ele construísse os próprios jogos
  • Ainda criança, ele construía jogos em 3D e usava os trabalhos da escola como desculpa
  • Publicou alguns, nunca fez marketing deles, só queria que os amigos jogassem
  • O que o fisgou: ver a programação se transformar em algo visível e real

A Chegada aos EUA

  • Cedo ele percebeu que os cursos de ciência da computação no Brasil não lhe dariam o que ele queria
  • Candidatou-se a 40 universidades com a lógica de que a que desse a maior bolsa seria a escolhida
  • A University of New Hampshire lhe deu bolsa integral, e ele teve que pesquisar onde ficava New Hampshire
  • Foi lá que conheceu o cofundador, como colega de quarto

Sete Produtos Antes da Firecrawl

  • Ele rejeita a palavra fracassos: cada um foi exponencialmente melhor que o anterior
  • Primeiro, um app para universidades, como todo universitário que quer fazer startup. Os ciclos de venda das universidades são lentos e o orçamento é zero
  • Depois, uma biblioteca de componentes de UI para Flutter, além de uma comunidade de desenvolvedores no Instagram que chegou a 50.000 pessoas engajadas
  • Perceberam que essas pessoas tinham dificuldade para aprender a programar, então construíram uma plataforma de cursos dentro do VS Code, na era pré-IA
  • Lançaram um vídeo do produto antes de construí-lo, colocaram um preço, e as pessoas compraram
  • Aplicaram para a YC com esse produto, por impulso, quando já estavam ganhando um bom dinheiro

A Entrevista na YC

  • Saíram da entrevista de 10 minutos convencidos de que tinham ido mal
  • A YC não gosta muito de negócios de educação, e eles não tinham currículos impressionantes
  • A regra era que uma ligação significa que você entrou e um e-mail significa que ficou de fora. Duas horas depois, chegou um e-mail
  • O e-mail era do partner pedindo para conversar. Eles se prepararam como nunca
  • Nicolas, o partner, abriu com os parabéns. Todo mundo na chamada travou

Construir para Desenvolvedores É Construir para Agentes

  • Os três pilares da Firecrawl: confiabilidade, velocidade e facilidade de uso
  • A estratégia são as primitivas: a menor unidade que faz uma coisa bem e pode ser testada
  • Os scrapers antigos não conseguiam competir com a simplicidade da API
  • A tese deles: quem conquista os desenvolvedores conquista os agentes, porque os agentes são construídos por desenvolvedores
  • Por isso eles lançam MCPs, CLIs e conexões com um clique para Claude e Codex
  • O que muda ao construir para agentes: a documentação já não precisa ser concisa, dá para passar a um agente uma página ou uma skill inteira
  • Boa parte do marketing deles hoje é SEO e GEO, porque as pessoas perguntam a um LLM qual ferramenta usar e você precisa aparecer nessa resposta

O Teste do Indie Hacker

  • Se um produto pode ser construído em um fim de semana, não é um produto, é uma feature
  • Enzo admite que testou um produto de memória e o apagou no mesmo dia, duas vezes na mesma semana
  • Com o custo de construir indo a zero, a diferenciação é a pergunta que toda startup precisa responder ou se torna obsoleta
  • A resposta da Firecrawl é um data flywheel: índice próprio, páginas em cache, entendimento de como a web funciona
  • Alguém pode construir um scraper razoável em um fim de semana, mas não igualar a qualidade, a latência e a confiabilidade
  • Sem um flywheel, um efeito de rede ou proximidade com o hardware, você é substituível
  • O conselho clássico era ignorar a defensabilidade no início e deixar a execução revelar o caminho. Ele defende que, com a IA, essa conversa precisa acontecer muito antes
  • A ressalva dele: ainda é um ótimo momento para fazer vibe coding de um app e ganhar dinheiro. Construir uma empresa geracional é que exige mais

Não Desenvolvedores e Distribuição Invisível

  • Dois caminhos: explicar o valor em termos que eles entendam, ou embutir o produto para que nunca percebam
  • O Lovable tem um conector nativo, então os usuários nunca se cadastram na Firecrawl e nunca sabem que o agente deles a está usando
  • O que importa é conquistar o agente, e isso o torna mais importante para não desenvolvedores, não menos

Open Source como Go-to-Market

  • Lançaram open source e cloud no primeiro dia, idênticos, sem nenhuma funcionalidade guardada
  • Mesmo assim as pessoas não queriam fazer self-host, só queriam uma forma fácil de buscar dados na web
  • A visão dele hoje: o GitHub parece menos comunidade e confiança e mais um Product Hunt, uma superfície de distribuição
  • Ainda acredita nisso, mas já não tem certeza de que seja o melhor primeiro passo
  • O efeito colateral nas contratações: muitas pessoas que contrataram vieram do repositório, já pré-avaliadas pelos próprios PRs
  • A pergunta em aberto: com agentes de programação, como avaliar esse sinal agora
  • No time eles têm pessoas que começaram a programar aos cinco anos e pessoas que nunca aprenderam a programar e lançam produtos incríveis
  • Toby Lütke, fundador da Shopify, os encontrou pelo open source e pediu para fazer um cheque sem nem marcar reunião. A Shopify também é cliente

A Web que os Agentes Vão Usar

  • A pergunta sem resposta: quão diferente a web vai ser para os humanos daqui a alguns anos
  • Os agentes não deveriam ter que rolar a página, clicar em menus suspensos e preencher formulários para obter dados; isso deveria ser uma chamada de API
  • Sinais da mudança: o llms.txt e sites que se convertem para markdown
  • A hipótese dele é que não muda muita coisa para os humanos em cinco anos, porque ainda queremos conteúdo visual e bem-feito
  • A alternativa é a generative UI: o seu agente constrói a interface de que você precisa para os dados que quer
  • A Cloudflare publicou dias antes que o tráfego de agentes superou o tráfego humano na rede deles
  • A conclusão dele: uma empresa que não está pensando em agentes tem poucas chances de existir daqui a cinco anos

A Ambição

  • Tornar-se o context engine da IA e os olhos da superinteligência
  • A web pública é um começo, mas a maior parte dos dados valiosos fica atrás de barreiras privadas
  • Isso significa, em algum momento, competir com empresas que hoje ninguém considera concorrentes, incluindo provedores de dados que vendem para CRMs
  • Entre energia, chips, dados de treinamento e dados no momento da inferência, a aposta dele são os dados

Glossário do Vale do Silício

TermoO que significaContexto no episódio
PrimitivasAs menores unidades de funcionalidade, pensadas para serem combinadasA filosofia de design da Firecrawl: blocos simples que você chama uma vez e esquece
Teste do indie hackerSe alguém consegue construir em um fim de semana, é uma feature e não um produtoO filtro interno deles para saber se algo é defensável
Data flywheelO produto melhora à medida que mais pessoas o usamO fosso da Firecrawl: índice próprio, cache e o entendimento acumulado da web
DefensabilidadeO que impede um concorrente de copiar vocêA pergunta que, segundo ele, agora precisa ser respondida muito antes do que antes
MCP (Model Context Protocol)Padrão para conectar ferramentas a modelos de IAUma das superfícies que eles lançam para que os agentes cheguem à Firecrawl
GEO (Generative Engine Optimization)Otimizar para aparecer nas respostas geradas por LLMsPara onde vai boa parte do marketing deles hoje, junto com SEO
llms.txtArquivo que expõe o conteúdo de um site em um formato que os modelos conseguem lerUm sinal de que a web está se adaptando aos agentes
Generative UIInterfaces geradas sob demanda em vez de desenhadas com antecedênciaUm cenário de como a web poderia mudar para os humanos
Inference-time dataDados que o modelo consome ao responder, não ao treinarA camada em que a Firecrawl aposta, em vez dos dados de treinamento
Context engineInfraestrutura que fornece contexto em tempo real para a IAO que eles querem se tornar

Pessoas, Empresas e Referências

Pessoas Mencionadas

  • Nicolas Silberstein: cofundador e CTO da Firecrawl
  • Toby Lütke: fundador da Shopify, investiu depois de encontrá-los pelo open source
  • Seus pais: o pai, engenheiro, o incentivou a construir jogos em vez de jogá-los
  • Ronaldinho, Kaká, Ronaldo: as referências com que ele cresceu no Brasil
  • Enzo Cavalie: host do podcast

Empresas e Organizações

  • Firecrawl: a ferramenta que permite que agentes de IA leiam a web, 350.000 desenvolvedores
  • São Paulo FC: o clube onde ele treinou quando criança
  • University of New Hampshire: deu a bolsa integral que o trouxe aos EUA
  • Y Combinator: onde entraram com o produto de educação, e onde a ambição deles mudou
  • Shopify, Replit, Zapier: clientes
  • Lovable: integração nativa em que os usuários nunca veem a Firecrawl
  • Cloudflare: publicou que o tráfego de agentes superou o tráfego humano na rede deles
  • Claude, Codex: os agentes de programação com que eles se integram

Dados e Referências

  • 350.000 desenvolvedores: base de usuários atual
  • 170.000 estrelas no GitHub: a tração do open source
  • 40 universidades: quantas ele tentou antes da bolsa integral
  • 7 produtos: o que construíram antes da Firecrawl
  • 50.000 pessoas: a comunidade de desenvolvedores que construíram no Instagram

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